Mostrar mensagens com a etiqueta entrevista. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta entrevista. Mostrar todas as mensagens

Grande mulher

08:00:00

Cavaleira Ana Batista prepara a nova época taurina na sua quinta em Salvaterra de Magos. Ela foi uma das mulheres a quem quisemos dar destaque na edição de março da gira. Mulher forte, ribatejana, com garra 💪 e que tudo fez para vencer num mundo predominantemente masculino 😏. Custou mas conseguiu ser reconhecida no meio . A história é contada aqui clicando na imagem ao lado 👉 . A edição em papel pode ser levantada num destes locais 👉 http://bit.ly/2fiO1tE 👌.

"A vida deu-me estaleca"

17:02:00


Assinala-se esta semana o dia internacional da mulher. A revista gira de março >>> http://bit.ly/2mT0RlM traz um especial com algumas mulheres da região que são exemplo de vida pela sua força e empenho. Teresa Porém, a decoradora de interiores de Alhandra, faz um balanço da sua vida aos 75 anos de idade. Uma entrevista conduzida pelo António Dias.

António Dias: Como chega ao mundo da decoração?
Teresa Porém: Sempre gostei. Lembro-me quando era miúda de ser pegada ao colo para ajudar a fazer laços, cortinas e vestidos. É um dom. É claro que qualquer pessoa pode ser criativa, se aprender e se se esforçar. No entanto, é mais simples quando se tem um gosto por isto. Como tal, foi uma decisão fácil que tomei. Trabalhava, na altura, logo após o 25 de Abril, no Instituto de Obras Sociais, num jardim infantil, aqui em         Alhandra. Tinham sido quase dez anos da minha vida dedicada às crianças que, verdade seja dita, são a minha outra grande paixão. Saí de lá, tirei um curso e depois comecei a trabalhar na área. Foi difícil porque os tempos eram outros. Havia pouca informação e variedade de produtos. Só que eu era muito habilidosa e adorava engenhocas. Os primeiros estores fui eu que os construí com o meu sogro. Queria implementar um sistema de subir e descer as venezianas e pedi-lhe ajuda. Lá construímos um mecanismo com uns cordeis, ripas e fios e ficou espetacular. Hoje já há de tudo e mais alguma coisa. Mas são estes desafios engraçados que não se esquecem e nos dão alento e experiência de vida. Agora vamos para Angola, Moçambique, trabalhamos 14 a 15 horas sem parar e nunca nos cansamos. É exaustivo? Sim. Mas tem que ser. Caso contrário, morre-se.

Imagino que em Angola trabalhe para uma elite.
Oh, sim! Levamos tudo em contentores. Num dos últimos trabalhos, só em rolos de papel eram uns 46.

A economia também caiu por lá.
É verdade. Por isso, temos que nos acautelar: exigimos 50 por cento do valor do orçamento logo na adjudicação, até porque nós temos que ter o material pago à partida. E, depois, o valor do nosso trabalho é liquidado até ao fecho do contentor aqui em Portugal. Já lá deixei muito di-nheiro em Angola. Se tivesse tudo o que ficou por lá perdido agora no meu bolso já estava reformada. Assim, tenho que trabalhar mais. O que, aliás, nem me incomoda. Não me vejo a fazer outra coisa na vida. Era incapaz de ficar em casa a engonhar.

Mas é uma empresária de sucesso.
Colhemos os louros que semeamos. O segredo é o passa a palavra. Seria impossível viver apenas com clientes da região. Há uns tempos fizémos um trabalho em Viseu a uma senhora que co-nheceu a minha marca depois de visitar uma amiga em Lisboa. Foi a uma festa, gostou da de-coração, perguntou quem a tinha feito e foi assim que chegou até aqui. E depois lá fomos a Viseu. Agora continuam a vir clientes do norte. E, claro, vivemos no tempo da internet. É um universo que desconheço e, confesso, me desinteressa por completo. Reconheço, todavia, que é um grande veículo de informação. Temos um sítio na web, todos os dias postamos algo no facebook... enfim, as minhas funcionárias tratam bem disso. E estamos sempre em cima do acontecimento. Este ano já fomos a quatro feiras internacionais porque a velocidade com que as novidades circulam é estonteante. Só em tecidos e papel de parede temos um autêntico show room. Poucas lojas se podem gabar de ter um stock como o nosso. E, por incrível que possa parecer, há sempre alguém que nos entra pela loja e nos pede algo novo que ainda não temos. Hoje em dia, o cliente é extremamente exigente e temos que responder de igual forma. É por isso que fico muito orgu-lhosa quando elogiam a minha loja e o meu trabalho. E com esta localização única, com o Tejo aqui em frente, bons restaurantes ao lado, esplanadas, museus... É impossível desgostar.

Se esta loja estivesse em Lisboa, era capaz de estar noutro patamar profissional.
Estou muito bem aqui! É claro que se o mesmo espaço estivesse no Parque das Nações seria um maná. E já tive lojas em Cascais. Só que gosto de estar aqui. Vive-se muito bem em Alhandra. Podia-me sair o euromilhões mas nunca iria morar para outro lado. E, confesso, tenho regido a minha vida por um estilo que é ambicioso quanto baste. Há quem diga que é um defeito, só que eu gosto de me resguardar, de estar perto da família, de estar longe da fama. Já tive imensos convites para aparecer aqui e acolá, mas recuso sempre. Admito que se tivesse tomado outras decisões na vida poderia estar noutro nível de riqueza, mas sou feliz assim.

A crise não a fez repensar isso?
Tem sido complicado, é verdade. O fluxo de trabalho é menor mas as despesas continuam a cair. O problema são os impostos: a nossa maior fatia do trabalho é para pagar ao Estado. É um crime. Os trabalhadores são quem menos recebem e deviam ganhar mais. Só que é impossível com esta conjuntura. Nestas condições ainda consigo manter o negócio, mas se me atrasar a pagar o IVA ou o IRS o governo fecha-me a porta. Os trabalhadores sabem muito bem o sacrifício que faço. Já cheguei a ter um atelier com 12 costureiras! Agora, somos sete ao todo.

E onde se vê nos próximos anos?
Estou a pensar deixar o negócio para a minha filha e para o meu genro. Eles percebem muito do assunto, têm muito gosto e fazem escolhas giras e acertadas. E, depois, penso abrir outro negócio, algo que ainda não há aqui em Alhandra.

Quer destapar parte do véu?
(risos) Não. É segredo. Depois conto.

Como vê a evolução de Alhandra e do resto do concelho?
Alhandra está muito bem mas Vila Franca de Xira morreu. Precisava de um valente investimento. O que está ali a Quinta das Torres a fazer ao abandono? Temos um potencial imenso, com o rio aqui ao lado e está tudo parado! Uma universidade, um hospital, lares, creches, há tanto dinheiro por aí espalhado. O que é triste é que quem tem vontade não tem recursos e quem tem dinheiro nada faz. Às vezes, acredito que dava jeito um pouco mais de vontade política. Aquele centro comercial ali no meio da cidade é um desperdício. Quando vou ao banco a Vila Franca, fico sempre em pânico. Tenho sempre que levar alguém no carro para que fique uma pessoa à espera. Dou duas ou três voltas e venho embora. Não pode ser. Então não podiam abrir o estacionamento no Vila Franca Centro? É preciso dar condições às pessoas para que nos visitem. Caso contrário, elas procuram outros locais!

Ser mulher foi alguma vez um impeditivo de algo na sua vida?
Nunca, até porque nunca deixei. Fui uma das primeiras mulheres nas autarquias. Fiz parte da Junta de Freguesia de Alhandra e da Assembleia de Freguesia. Era tudo homens e, apesar de algumas bocas que podia ouvir, nunca verguei. O meu filho mais novo dormiu muitas vezes, naquelas reuniões noite dentro, em cima da secretária. O Pedro Neto, presidente da Junta na altura, dobrava o blusão dele para servir de alcofa. Toda a gente achava graça. Às vezes ofereciam-se para me levar até casa, ou comentavam que uma mu-lher como eu nunca devia andar sozinha na rua. Recusei sempre estes esteriotipos. O que me regia era o meu esforço e a crença no que estava correto. Ninguém tem isto (une o polegar e o indicador) para me apontar. Tenho muitos defeitos mas batalho muito e sou muito organizada. O que tem sido a minha safa! Hoje já fiz a minha sopa, arrumei a casa, estendi a roupa e cá estou! Não sou mulher de estar no café. Há tanto para fazer na vida! Porque haveria de perder o tempo com inutilidades? As mulheres não podem ter medo dos homens. Trabalhem, mostrem que são capazes. Nós somos mais focadas e multifacetadas. Não podemos esmorecer.

E de onde vem toda essa energia?
(risos) Da vida. Fui casada 24 anos mas fui sempre eu que geri a minha rotina, os filhos, a família, ajudando os outros sempre que posso. Foi a vida que me deu estaleca. Há mulheres que se acomodam demasiado e não pode ser! Faz-me uma impressão enorme ver casos em que é o marido que mexe na conta bancária e decide os destinos da casa. Em dezembro fui a Angola sozinha. Não tenho receio algum. Ainda há pouco tempo fiz  exames e está tudo perfeito. Em maio lá irei a Fátima a pé como faço todos os anos. Sou eu que puxo por aquele gente. Nunca tenho uma bolha no pé e quando venho de lá tomo um banho e vou trabalhar. Recuso-me a ficar em casa a deprimir. A vida é demasiado curta. E quando estou sem nada para fazer, vou à missa, aos domingos, às 19h, na igreja dos Pastorinhos, em Alverca. Ou então, pego no carro e vou ao cinema. Desde que tenha dinheiro para o bilhete e para o combustível. O que importa é estar viva.

Veja mais fotos e o vídeo da loja da Teresa Porém no sítio da gira e no facebook


#gentedanossaterra #estaterraégira #alhandra #exemplosdevida #aprendercomosmaisvelhos #entrevista

"Dormimos pouco"

22:06:00

Hospital de Vila Franca de Xira e o Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Estuário do Tejo Arslvt IP organizam amanhã e sábado, 17 e 18 de fevereiro, as Jornadas da Saúde dedicadas, este ano, ao sono. Será uma oportunidade para profissionais de setor trocarem impressões mas também para alertar a população para a falta de higiene de sono que a sociedade atual padece. A revista gira falou com a doutora Paula Rosa, uma das organizadoras que deixa alguns alertas sobre este assunto.
A medicina do sono ainda é uma ciência nova.
O sono em si é uma patologia antiga, com a qual sempre tivemos problemas. Passamos um terço da vida a dormir e, como tal, isso afeta o nosso dia a dia de alguma maneira. Existem diversas patologias. De um modo geral, muitas ainda são desconhecidas. As principais são a insónia e a apneia do sono, sendo que recorremos muitas vezes a sedativos para as tratar. Todas estas questões eram muito desconhecidas pela própria classe médica há duas ou três décadas. Só que as pessoas cada vez mais ficam acordadas até tarde. Deixaram de regular a sua vida pelo sol e pela noite. A televisão, a luz elétrica ou os telemóveis permitem-nos prolongar o dia. Além disso, a vida moderna, com muita gente a trabalhar por turnos e, às vezes, em dois ou três locais diferentes, tira tempo ao nosso dia, restando poucas horas para o resto: a nossa família, as nossas refeições. Ora, e onde vamos tirar para recuperar tudo isso? Ao sono. Os jovens ficam mais tempo à frente dos computadores, há televisão 24 horas por dia e, aos poucos, vamos roubando ao ato de dormir, que achamos inútil, o tempo que queremos para as nossas atividades no dia a dia. E é assim que adquirimos maus hábitos de higiene do sono.
Há números concretos das consequências que isso tem na sociedade?
Ainda há poucos dados, fruto do desconhecimento, do recente despertar para estes pro-blemas e porque tudo isto é muito dependente dos hábitos e da cultura das sociedades. É muito difícil ter uma ideia global. Tem que ver com as gerações, por exemplo. Os jovens, hoje em dia, têm uma péssima higiene de sono. Nem só porque fazem "noitadas" mas também porque estudam muitas horas pela noite dentro. Os estudantes universitários são dos grupos mais preocupantes. Mas há outros: pessoas com problemas económicos, que trabalham demasiadas horas por dia e muitos dias por se-mana, que, mesmo que quisessem, são incapazes de ultrapassar. Aí, temos mesmo que ajudar com algumas dicas. Um padeiro, por exemplo, que trabalha toda a vida à noite, para estar com a família tem que, forçosamente, dormir pouco. Outro dos grupos são os pilotos de companhias aéreas que, além de turnos, vivem com diferentes fusos horários. É muito complicado resolver estas questões.
Isso tem consequências, certo?
Sem dúvida. Altera a capacidade de raciocínio, a concentração, a decisão, perturba os mecanisos de adapatação internos, como o sistema imunitário. É quase como quando se bebe muito álcool. Mesmo sem haver uma doença há, seguramente, efeitos que ainda são difíceis de contabilizar. Sabemos que muitos acidentes ocorrem por falta de sono, às vezes associada ao consumo de estupefacientes. Um efeito bola de neve com resultados desastrosos porque os comprimidos, em certos casos, desregulam e complicam o problema que deveria ser resolvido de outra maneira. Eu diria que 60 por cento das pessoas dormem mal. Nem todas têm alguma patologia, apenas má higiene do sono: dormem pouco, ou demasiado, ou em pequenos períodos e tudo isso descontrola o metabolismo. A apneia do sono deverá afetar cerca de quatro por cento da população. Um número que, em perspetiva, é alto. Aqui entram outros fatores que podem agravar a doença, como a obesidade ou o consumo de sedativos.
Tendo em conta os maus hábitos de vida atuais, a tendência é para o cenário piorar?
O futuro é preocupante. Quando somos obrigados, num curto período de tempo, a alterar os nossos ritmos, o organismo tem capacidade de se ajustar e, depois, voltar ao normal. O problema é quando as perturbações são persistentes e que levam, muitas vezes, a fenómenos de ansiedade e o indivíduo entra num processo de insónia crónica o que torna o problema complicado de eliminar. O recurso de medicamentos até parece que se vulgarizou. Infelizmente. Devem ser utilizados apenas quando há uma patologia específica e perante uma estratégia objetiva em que no final deixam de ser necessários. Estes produtos alteram o ritmo do sono e muita gente acaba dependente de comprimidos para acordar, para deitar, para adormecer, para ter energia... é um ciclo complicado de romper. É necessário tratar o verdadeiro problema que é a má higiene do sono e hábitos de vida errados.
Mas como se diz a um obeso que a verdadeira solução é mudar o comportamento e comer melhor?
São casos difíceis de tratar. A obesidade agrava a apneia de sono e que, por sua vez, provoca sonolência e cansaço. Como se diz a esta pessoa que deve praticar exercício físico se acorda exaus-to? Nestes casos, por vezes, tem que entrar a medicação mas não pode ser a norma.
Com os estímulos da sociedade, parece que está a lutar contra a maré.
As pessoas arranjam sempre boas desculpas para fazer aquilo que as deixa mais confortáveis. Há quem alegue que lhe é impossível fazer dieta porque come todos os dias em restaurantes. Ora, todos os espaços têm sopa, saladas, grelhados, peixe. Cabe a cada um fazer as suas escolhas. O primeiro passo que alguém com problemas de sono deve fazer é alterar a forma como vê os seus hábitos de vida.
Quais são os principais sinais de alerta?
Há vários perfis de "dormidores". De um modo geral, as pessoas devem conseguir dormir as mesmas horas, no mesmo período de tempo. Cada um tem o seu ritmo diferente: há quem durma só seis horas, outros precisam de nove horas. O importante é que, depois de descansar, seja capaz de funcionar normalmente. Se acorda muitas vezes durante o sono com pesadelos, se fala durante a noite, se está cansado quando acorda, se adormece muito facilmente nos transportes ou no trabalho, então é porque algo está mal e deve procurar um especialista.

Estão os médicos preparados?
É verdade que ainda falta uma disciplina de medicina do sono nas faculdades mas há cada vez mais conhecimento. O problema, na maioria das vezes, é que os profissionais não recebem as queixas. Os utentes chegam com falta de ar, cansaço, dores e nunca associam isso ao sono. Cabe aos clínicos fazer a pergunta de forma ativa. Aqui ainda há algum trabalho para fazer. É importante frisar que o sono é uma área que abarca diversos campos, como a pneumologia [área de trabalho da doutora Paula Rosa], neurologia, psicologia, entre tantas outras. É importante apenas que o primeiro passo seja dado. Mesmo que haja, às vezes, desvios no percurso, o importante é que o paciente chegue lá. Por isso, o melhor conselho é: se houver algo errado, devem fazer essa refe-rência aos seus médicos.

Deve ser difícil vencer esse desconhecimento na população.
Há cada vez mais informação e visibilidade para os problemas do sono. Antes, achava-se normal os mais gordinhos ressonarem, hoje já se procura resolver o problema. É claro que, às vezes, para muitos doentes é difícil abordar questões que entram na intimidade de cada um. É preciso, pois, abordar abertamente estas situações.

Esse é um dos objetivos das conferências?
Sim. E encontrar soluções, debater temas que são comuns à classe médica, trocar impressões sobre as nossas experiências profissionais. Não só evidenciar os sinais que devem alertar o médico mas, também, fornecer as armas para os poder ajudar. Seguramente os médicos de família podem ajudar a resolver muitos problemas que lhes chegam às mãos.

Um eterno cruzar de culturas

12:47:00

Aurore Boillat, tem 27 anos. Começou ontem, sexta-feira, 13 de janeiro, o percurso de Lisboa a Santiago de Compostela. Um passeio leve comparado com a caminhada que fez, no ano passado, de Genebra, na Suíça, onde mora, até à mesma cidade espanhola. "Foram 72 dias sempre a andar", recorda, com um sorriso, à gira. "Gosto do espírito e daquilo que aprendo com a mensagem da Igreja", explica. Silenciosa, procura no telemóvel referências a Vila Franca de Xira. "Estou a gostar muito do percurso até agora. É a minha primeira vez em Portugal. Achei que sair de Lisboa seria mais complicado. Comparado com Pamplona, por exemplo, que tem imensas áreas industriais e é uma cidade enorme, o percurso junto ao rio, da capital até aqui, acabou por ser muito agradável", elogia. A jovem está neste momento desempregada e esta é uma forma de fazer uma pausa na sua vida e repensar. "Eu tenho o curso de Criminologia, só que os empregos que arranjo são sempre precários ou mal pagos". Pelos vistos, o mal é geral. Esperam-na quase 600 quilómetros de estradas e provavelmente um mês de viagem. "E talvez depois disso ainda continue a descobrir novas terras", refere. Até podes ir a pé até à Suiça, contrapomos. Ela solta uma gargalhada. "É provável". Bem vinda, Aurore. E boa viagem! Volta sempre!

Todos podem fazer a diferença

13:50:00


Maria da Conceição nasceu em Vila Franca de Xira há 39 anos. Saiu do país aos 18 e chegou a ser assistente de bordo na companhia aérea Emirates. Deixou uma vida cheia de regalias para ajudar famílias carenciadas no Bangladesh. É provavelmente uma das maiores filantropas portuguesas e precisa de toda a nossa ajuda, "nem que seja um euro". O António Dias entrevistou-a quando esteve em Lisboa recentemente. E a Ana Paula Vieira esteve lá a fotografar.

Já é uma personalidade famosa por cá. Ainda assim, há quem desconheça o seu trabalho.
No Dubai sou muito reconhecida. Foi a estratégia que usei para poder encontrar verbas para a minha fundação.

Como tudo começou?
Eu tinha uma vida normal como assistente de bordo. Num dia de abril de 2005 estava de escala no Bangladesh e tinha algum tempo livre e perguntei no hotel o que havia para fazer na cidade. Deram-me poucas ideias mas sugeriram visitar o orfanato da Madre Teresa de Calcutá, algo que os estrangeiros costumavam fazer. Aceitei a ideia, só que, quando lá cheguei, umas das irmãs estava de saída para o hospital de Dhaka para levar uma menina e convidou-me a acompanhá-la, sem imaginar o que iria encontrar. Foi um choque. As condições eram infrahumanas: doentes espalhados pelo chão, feridas expostas, as necessidades fisiológicas feitas em qualquer lado. O ar era irrespirável. Pedi desculpa e saí. Naquela noite, nem consegui jantar. Estava agoniada. No dia seguinte, no regresso ao aeroporto, enquanto as minhas colegas discutiam as condições do quarto ou a comida do restaurante, eu olhava para as ruas onde deambulavam centenas de crianças pobres à procura de comida ou lixo para vender. Um das pessoas ao meu lado, perante este cenário, fechou a cortina e é aí que senti o baque no coração. Eu não podia continuar a viver num mundo em que somos confrontados com as notícias de pobreza e tragédia e em que a nossa atitude é mudar de canal ou virar a página do jornal. Quando cheguei a casa, no Dubai, fui comprar um gelado que custava 22 dirham (€5) e comecei a fazer contas. Com aquele dinheiro eu conseguia comprar 22 quilos de arroz no Bangladesh! A diferença era abismal. Em maio tinha dez dias de férias planeadas na Nova Zelândia e decidi alterar os meus planos e gastar o meu tempo a fazer alguma coisa em Dhaka. Fui limpar o hospital, comprei produtos de higiene, lençóis, tudo o que podia para mudar as condições sanitárias do espaço. Nada foi planeado. Eu apenas sabia que não podia continuar a virar a página do jornal, a fechar a cortina do autocarro ou a mudar o canal de televisão.

Maria Cristina, a sua mãe adotiva, também a inspirou muito.
Ela costumava dizer: "quem alimenta seis dá comida a mais um". Quando tinha dois anos de idade, a minha mãe teve um problema de saúde e é esta amiga da família que passou a cuidar de mim. Fui para Avanca, perto de Estarreja, no distrito de Aveiro, onde vivi com ela e os seus seis filhos. Ela acabou por sofrer um ataque cardíaco e faleceu quando eu tinha nove anos. Mas nunca esqueci a sua força e exemplo de vida. É por isso que, anos mais tarde, dei à minha fundação o nome de Maria Cristina.

E como é que uma portuguesa emigrada cria uma fundação mundialmente famosa?
Quando atingi a maioridade, fui para a Suíça trabalhar e daí para a Inglaterra. É aí que entro para a Emirates que procurava falantes em português. É com a companhia aérea que acabo por desbravar horizontes e conhecer melhor o mundo. Em 2005 acontece este episódio em Dhaka e a partir daí fui gerindo a minha vida da melhor maneira possível. Com o meu ordenado e com a ajuda de colegas, amigos, pilotos, entre outras pessoas, ia recolhendo roupas, comida, dinheiro para isto ou para aquilo. Até 2008 fui vivendo assim, sem uma gestão concreta. E é quando se dá a crise financeira em que sou forçada a pensar em alternativas. Tive que me concentrar e encontrar uma estratégia. Criar a fundação foi a forma de dar visibilidade ao meu projeto, porque assim teria algo para apresentar às pessoas. Durante algum tempo ainda ponderei recorrer a programas de televisão e a figuras públicas como a Oprah ou a Angelina Jolie. Mas é difícil chegar a este patamar. Depois, lembrei-me que no Dubai as empresas são obrigadas por lei a contribuir para causas sociais e muitas optam por ajudar pessoas que fazem trabalho humanitário através de provas desportivas que patrocinam. E foi aí que tudo começou. Ainda consegui manter a minha profissão, com o trabalho de voluntariado, as provas, tudo ao mesmo tempo. Só que era muita coisa. Comecei a entrar uma espiral de cansaço crónico. E em 2012 saí em definitivo da empresa.

Tem saudades?
Das regalias. Porém, não me consigo imaginar a viver de outra maneira. Tenho 101 famílias com 131 crianças que dependem de mim para co-merem, para terem um teto, irem à escola... há muita pressão sobre os meus ombros. Estou focalizada nesta tarefa que é muito importante. Ninguém imagina o trabalho que fiz nestes últimos 11 anos e há imenso para fazer a níveis que ninguém imagina. Por exemplo, quando comecei a querer contribuir, tinha muito a atitude de perguntar o que podia melhorar. Um menino disse-me que o seu sonho era ter um bilhete de identidade, porque, caso morresse, ninguém saberia quem ele era. Ele não desejava comida, apenas um pedaço de papel que dissesse quem ele era. Existem milhares de crianças sem registo no Bangladesh, que morrem e ninguém sabe quem são ou quem foram. É aviltante! Só nessa altura tratei de 750 certidões de nascimento que as entidades governamentais eram incapazes de processar e fui eu que paguei a funcionários para poderem tratar da papelada. Não há estatísticas. É pior que o terceiro mundo.

Deve ser frustrante deparar-se com este trabalho hercúleo.
É uma guerra para travar em diferentes frentes de batalha. Mesmo lá é difícil chegar às pessoas. Muitas olham-nos com desconfiança e é o próprio país que os maltrata. Como estas pessoas são de castas inferiores, perguntam-me porque me preocupo com elas? E mesmo os pais não conseguem ajudar porque os patrões preferem empregar crianças a quem pagam menos. É normal os adultos mandarem os mais novos para fábricas ou aterros de lixo para recolherem papel ou latas para reciclar. Há muitas barreiras culturais para vencer.

Planos para os próximos tempos?
Continuar a lutar pelo futuro destas pessoas que acolhi. Tentei atravessar o Canal da Mancha em agosto, mas as condições dificultaram. Já tenho marcada nova tentativa para setembro do pró-ximo ano. E estou à espera de avançar para uma nova prova desportiva no primeiro semestre de 2017 que irá, caso tenho sucesso, ficar registada no livro dos recordes do Guiness. Mas ainda está nos segredos dos deuses. É sempre um desafio encontrar algo que me motive e mantenha a fundação viva. Existem milhares de organizações não governamentais à procura de apoio e todas precisam de visibilidade. A minha meta é 2026 porque é nesse ano que a “minha menina” mais nova, com oito anos, atinge a maioridade e será livre de escolher o seu futuro. Este ano tivemos 12 crianças que conseguiram a sua independência. Em 2018 serão 22 e, no ano seguinte, outras 22 terão ferramentas para lutarem pela sua vida. Será assim até as 131 conseguirem o seu projeto pessoal. Terei 49 anos de idade na altura e espero que todas elas sejam adultos que possam passar a mensagem, cuidar dos seus e, nem que seja, acolher uma só criança. Espalhar uma rede de bondade e assistência. Porque eu sei que não estarei aqui toda a vida.

Saiba mais sobre a fundação Maria Cristina e contribua para a causa desta vilafranquense: www.mariacristinafoundation.org. E veja os instantâneos em vídeo e o resto da entrevista no síto da gira em revistagira.com

"Criamos cidadãos do mundo"

17:26:00

A fundação CEBI assinalou, a 25 de novembro, 48 anos de existência. Aquilo que começou por ser uma pequena creche, criada por José Álvaro Vidal, em 1968, cresceu para se tornar numa das maiores instituições do concelho de Vila Franca de Xira, reconhecida além fronteiras. Ana Maria Lima, presidente desta instituição, responde às questões do jornalista António Dias, num breve balanço do seu mandato.

António Dias: Ficou assustada com a res-ponsabilidade de assumir o cargo de presidente?
Ana Maria Lima: Apesar de ter assumido a presidência há cerca de três anos e meio, faço parte desta casa há mais de duas décadas, desde que o antigo Centro de Bem-Estar Infantil se transformou na Fundação CEBI. Na altura, quando o Sr. José Vidal convidou diversas organizações para constituir a Fundação, entre elas o banco Santander Totta, do qual fazia parte, tive o meu primeiro contacto com esta instituição e apercebi-me imediatamente da sua importância no seio da comunidade. Nas várias áreas de intervenção da Fundação, Educação, Ação Social e Saúde, temos sabido conquistar a confiança dos nossos utentes. A Fundação CEBI está cons-ciente da necessidade de continuar a apostar na melhor forma de intervenção sobre a proteção e promoção da qualidade de vida, em condições condignas, de todos os indivíduos que cons-tituem a teia social em que se integra, desde os mais novos, aos mais velhos. Por outro lado, foram dados passos no sentido de modernizar a nossa organização, onde cada departamento tem as suas responsabilidades e objetivos bem definidos. O nosso plano de atividades e res-petivo orçamento, por exemplo, é elaborado em conjunto, em que todos os responsáveis se comprometem com as suas metas. Nada é feito de cima para baixo. Tudo é discutido e partilhado. Estou consciente que faço o meu melhor pelo que não me assusta a responsabilidade que assumi.

São muito frequentes os elogios, dos encarregados de educação aos vários agentes sociais da região. Mas nada é perfeito. Que problemas há para resolver?
Numa organização como esta há sempre aspetos a melhorar. Caso contrário, estagnávamos no tempo. O nosso core business é a educação e estamos sempre em conversação com os pais e encarregados de educação com o intuito de acrescentar mais qualidade. E todas as restantes áreas têm o seu quinhão de possíveis melhorias.

Quer sublinhar alguns exemplos?
Um dos exemplos tem que ver com a criação de mais espaços para as infraestruturas atuais. O projeto mais importante que queremos implementar passa por alargar a nossa oferta educativa ao ensino secundário, exatamente porque os pais sempre manifestaram essa necessidade. Era para ter arrancado em setembro, mas o processo não correu como queríamos, acredito, contudo, que no próximo ano letivo deverá acontecer.

E que outras mudanças poderão existir?
Queremos muito melhorar o apoio à terceira idade. Já damos resposta a cerca de 200 idosos no centro de dia, na estrutura residencial e no apoio domiciliário. Estamos a estabelecer contactos para construir um novo lar e acredito que em breve poderemos ter novidades. No entanto, mantemos uma dinâmica muito forte com os diversos agentes locais, autarquias, organismos públicos e privados, para criar iniciativas que promovam a qualidade de vida dos nossos utentes.

Na valência da creche, onde parece haver mais procura, há ideias para o futuro?
Nos últimos anos sentimos uma forte quebra, por causa da crise e tudo o que ela trouxe: baixas taxas de natalidade, avós a fazerem o trabalho dos jardins de infância, pais desempregados disponíveis para tomar conta dos filhos. As pers-petivas de crescimento estão melhores e a ideia é continuarmos a dar resposta às solicitações da comunidade que nos envolve.

A Ana Maria Lima é da zona de Lisboa. Teme que isso a coloque distante da região?
Não, de todo! Sinto a Fundação como qualquer Alverquense. A Fundação tem 416 traba-lhadores, morando alguns a dezenas de quilómetros de distância. Somos uma equipa dinâmica e a nossa gestão é muito aberta. Fazemos reuniões frequentes e mantemos pontes constantes com a comunidade de Alverca.

Contudo, a sua formação de vida é a banca. Não receia ter uma visão demasiado economicista do seu trabalho?
É curioso que comecei a minha carreira profissional num colégio, só ingressando na banca posteriormente. Uma vez na banca, trabalhei em várias áreas e terminei no departamento que, para além de ou-tras funções, tinha a seu cargo a responsabilidade social do banco, que é dirigida sobretudo para o ensino e o conhecimento, apoiando também a cultura, desporto e ação social. Como a    educação é uma das áreas mais fortes da CEBI, essa minha experiência trouxe  sensibilidade quanto à importância do ensino no desenvolvimento de uma sociedade. Portanto, quando entrei para a CEBI essa experiência ajudou-me  a ter uma melhor perceção sobre as questões com que diariamente lidamos na Fundação. Aqui criamos cidadãos do mundo e incutimos, com naturalidade, valores como o altruísmo e a solidariedade nos nossos alunos.

Ainda assim, é preciso pagar para frequentar a CEBI. Será a fundação demasiado elitista?
Infelizmente, os subsídios que o Estado concede à Fundação apenas cobrem cerca de 30 por ento dos seus custos. Por esse motivo, as famílias também tem de contribuir com a sua quota parte de modo a suportar a diferença, contributo esse que é calculado em função do seu rendimento nas valências subsidiadas. O facto de existirem famílias que pagam uma mensalidade mais elevada, permite a frequência de alunos mais carenciados com mensalidades baixas ou mesmo gratuitas e a atribuição de bolsas de estudo. Si-gnifica isto que quem coloca os seus filhos no colégio da Fundação sente este espírito de solidariedade, não havendo qualquer distinção entre os alunos pelo facto de terem mensalidades diferentes. O ensino é igual para todos.

Deduzo que gostaria de poder ajudar mais.
Sem dúvida. Tendo sempre presente a sustentabilidade da Fundação, somos particularmente sensíveis aos mais desfavorecidos. No entanto, a Fundação CEBI está consciente do seu papel na promoção da di-gnidade humana. Posso confidenciar, por exemplo, que nunca alguma criança a viver na nossa Casa de Acolhimento passou um Natal ou passagem de ano na instituição. Pais, professores, técnicos e famílias amigas, há sempre alguém que se oferece para lhes proporcionar umas festas felizes em ambiente fami-liar. Faz parte do nosso código genético e isso enche-nos de orgulho.

Ainda assim, continua a falar-se de crise. Como vê o futuro do país?
Com esperança e muito otimismo. Existem alguns sinais de melhoria, como sejam a diminuição da taxa de desemprego e um ligeiro aumento do poder de compra. Outros indicadores apontam também para a retoma da economia. Esperamos assim que sejam criadas condições para que se inicie o rejuvenescimento do país, que, neste momento, está bastante envelhecido. Felizmente, hoje, os nascimentos já superam os óbitos, pelo que dentro de alguns anos teremos certamente uma população ativa superior à atual.

Castigar pode ter um efeito perverso

11:56:00



“Mas porque é que ele é assim?” Esta é, talvez, uma das perguntas mais frequentes quando ralhamos com os nossos filhos. Porque se deitou no chão a chorar; fez uma birra de sono; ficou com cara de caso; bateu num colega sem razão aparente; e por aí fora. O problema é sempre complexo e tem raízes profundas: a escola onde anda, os amigos que tem, o que vê na televisão, o que ouve na rua, a educação dos pais, claro, e, sobretudo, o que se passa no cérebro da criança. O progresso científico nas neurociências está a desvendar alguns dos segredos da mente humana e as descobertas podem ser uma preciosa ajuda na hora de determinar qual o melhor passo a dar. Há cada vez mais investigadores a dar pistas e livros que ajudam a encontrar respostas. “O Que se Passa na Cabeça do Meu Filho?”,da autoria de Cristina Valente, é uma dessas ferramentas que aqui aconselho. Como o próprio subtítulo refere, este é um guia para entender os comportamentos de oposição, decifrar silêncios e aprender a comunicar com jovens. “Os adultos precisam de perceber que há competências cognitivas ausentes nos mais novos. A visão de um pai para uma determinada situação é completamente diferente da de um filho ou filha”, explicou-me a psicóloga numa entrevista que me concedeu recentemente. A principal mensagem é deixar de lado os castigos e as ideias preconcebidas. “Educar com base nos castigos e nas recompensas é perverso. Ele pressupõe uma supervisão constante e ao fazê-lo estamos a criar um ‘animal treinado’. Se quero educar um ser livre não posso dizer que há algo externo a avaliar o seu desempenho”, avisou. “O dia tem 24 horas e dentro dele cabem inúmeros eventos, positivos e negativos, e, na maioria das vezes, focamo-nos nas borradas que eles fazem. Ora, no futuro, se ele ou ela quiser chamar a atenção sabe que ao cometer o mesmo erro, poderá ser o centro das atenções”, advertiu. Numa esplanada, em Oeiras, com o sol a bater-lhe no rosto, Cristina Valente sorri e aponta o caminho. “Se ele ou ela recebeu uma negativa numa disciplina, pode-se relativizar e dizer: ‘ok, tiveste uma má nota mas ao menos divertes-te com os teus amigos? És feliz na escola? Achas que consegues melhorar?’ é uma forma de olhar para o problema, de um prisma diferente”. E o primeiro passo, disse-me ela, é falar sempre depois do evento. “Elas só apreendem a mensagem quando as conseguimos acalmar. Depois, em vez de ralhar é preciso usar poucas palavras e explicar as consequências dos seus atos. Isso tem melhor resultado a longo prazo”, garantiu-me. O curioso do livro é que, feitas as contas, concluiu-se que é na cabeça dos pais que está o problema. “Por exemplo, estamos numa esplanada com amigos e os filhos estão ao nosso lado e queixamo-nos que não temos dinheiro para nada. Ele vai assumir aquela mensagem de uma forma literal e presumir que a família nem um cêntimo tem! É preciso ter cuidado com aquilo que transmitimos. Porque é esta discrepância entre os cérebros dos adultos e das crianças que explica as nossas guerras e angústias no dia a dia”, advertiu Cristina Valente. E ela tem imensa razão! Eu acredito que precisamos de mudar a forma como educamos os mais novos. Cometemos erros, muitas vezes, inconscientemente. O mundo está a mudar à velocidade da luz! O cérebro é o resultado de uma adaptação de milhões de anos, de tempos em que não existiam o facebook, a internet, a televisão, os jogos de computador, entre outros. Por isso, acho que perante uma sociedade em transformação constante é importante respirar fundo, pensar e só depois agir. E para ajudar a raciocinar está aqui este livro da Cristina Valente. Ufa! Haja alguém que ajude, certo?

Passear pelo Pico

11:53:00








Raúl Brandão escreveu “o Pico é a mais bela e extraordinária ilha dos Açores, com um estranho poder de atração. É uma estátua erguida até ao céu e amolgada pelo fogo". Faço destas as minhas palavras. Conheço São Miguel, São Jorge, Faial e o Pico. Esta última é, para já, a minha preferida no arquipélago. Acho que há algo de imponente naquela montanha, plantada no centro do oceano, ultrapassando os dois quilómetros de altura, um monstro silencioso e omnipresente. A ilha é fotogénica de todos os ângulos e tem imensos recantos deliciosos que vale a pena descobrir. E ainda por cima passa muito ao lado dos grandes circuitos turísticos. Como tal, mesmo em agosto, pode ser visitada com calma, sem grandes magotes a meterem-se no caminho. É, sem dúvida, uma ótima opção para relaxar e libertar o espírito de todo o cansaço acumulado. Além disso, há imensas atividades e por toda a parte respira-se silêncio e uma harmonia de cores e sons, só possível ali, no meio do Atlântico.
A melhor forma de visitar é alugando um veículo e percorrendo as estradas com um simples mapa. É quase impossível perder-se, ainda assim recomendo cautela, um mapa e atenção redobrada às indicações na estrada. O Piquinho, lá bem no alto, serve como guia para irmos circulando em seu redor, a partir da ER1, que circunda toda a ilha. Há pequenas vilas piscatórias, praias de água quente, de rocha vulcânica claro, prados sem fim, vaquinhas a olhar para o horizonte e bons restaurantes. E há algo que me fascina sempre quando viajo: detalhes históricos e novas descobertas que nos deixam impressionados de como tão pouco conhecemos sobre o nosso país.
O Pico é diferente das restantes ilhas, porque é a mais jovem e, por isso, todo o território ainda mal sofreu o desgaste do tempo. Geologicamente falando, claro. Há muita terra, sim, mas há sobretudo rocha, escura, mal parida das entranhas da terra, que vem sendo gasta pelo vento e escavada pelo homem nos últimos séculos. Foi lutando contra a aspereza dos terrenos, que os primeiros colonos portugueses, franciscanos, usavam as pequenas reentrâncias, falhas, rachas e buracos para enterrar os bacelos de verdelho. Este modo de cultivo da vinha é a imagem de marca do Pico, com as propriedades fechadas em pequenos currais, criando microclimas e desenvolvendo culturas que, aparentemente, poderiam ser impossíveis. É a prova da determinação humana. O vinho verdelho chegou à mesa dos czares russos, tornou-se paisagem protegida e é património mundial da humanidade desde 1996. O concelho da Madalena detém grande parte destes vestígios. Tem que visitar o museu do vinho, instalado num antigo convento, com uma vista sublime para o Faial.
Nas Lajes do Pico, no lado sul, está instalado o museu regional dos baleeiros que expõe muitos dos objectos que eram usados na caça à baleia, até ela ser proibida em 1987. Escusado será dizer que esta era uma das indústrias mais importantes, bem patente no museu que também existe em São Roque do Pico, na margem norte, onde é possível parar para comer qualquer coisa. É também daqui que se apanham os barcos para São Jorge. Um outro passeio que pode ser lido aqui.
O lado nordeste, menos povoado, está salpicado de vaquinhas a pastar, em prados de perder de vista. Há lagos suportados por antigas crateras; hortênsias a delimitar as curvas nas estradas; uma atmosfera húmida constante; e um silêncio apaziguador. Pontos de paragem obrigatórios, indo pelo lado sul, começando na Madalena, que tem ligação marítima à Horta, na ilha do Faial:

1 - Moinho do Mistério de São João e que é visível da estrada.
2 - Lajes do Pico, onde almoçamos no restaurante Lagoa com grelhados e marisco fresco. É também aqui perto que se encontra aquela que terá sido a primeira construção humana na ilha, a antiga capela onde morou frei Diogo das Chagas, o primeiro habitante do Pico.
3 - Calheta de Nesquim, onde existem ainda casas dos botes baleeiros e uma vigia que era usada para avistar as baleias no mar.
4 - Farol da Manhenha, na ponta da ilha. São Miguel fica 200 quilómetros a sudeste.
5 - Saia da estrada principal, circule pelos itinerários secundários e admire o verde sem fim. As estradas estão bem alcatroadas, mas cuidado com as curvas!
6 - Siga em direção à EN2 e regresse à civilização em São Roque do Pico. Há uma praia bem bonita onde é possível estender a toalha e dormir em cima da rocha.
7 - Regresse ao centro da ilha e conduza em direcção a oeste pela maior reta de estrada que existe fora do continente. Com nove quilómetros sempre a direito, 23 no total, a EN 3 deixa-o praticamente à porta da Madalena.
8 – Dê um pulo ao museu do Vinho que, além de peças históricas, tem um bonito jardim com dragoeiros com mais de 900 anos de idade!

Pelo meio, poderá encontrar alguns mistérios. A sério! São campos de lava solidificados, em locais e de formas estranhas, para as quais os habitantes não tinham justificação, sendo por isso chamados mistérios da natureza. O nome pegou e há, agora, muitos mistérios espalhados pela ilha do Pico. E eu, que por lá andei, confirmo. Há muitos segredos no Pico. Há recantos, igrejas, praças, casinhas, campos e paisagens que não aparecem nos guias turísticos, mas que são vestígios de um povo e de uma História que é nossa. Cabe a si descobrir essas maravilhas. Boa viagem!

Escritoras de um país melhor

11:51:00



O percurso profissional de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada confunde-se com a transformação radical que Portugal atravessou nas últimas quatro décadas. É impossível dissociar o aumento dos hábitos de leitura com o trabalho desenvolvido pelas escritoras. E se há mais jovens a ler, o país fica a ganhar. Portugal tem uma enorme dívida de gratidão para com estas ex-professoras. Exagero? Bem pelo contrário.
Quando era miúdo, detestava ler. Atravessei a primária, atual primeiro ciclo, apenas com aquilo que captava nas aulas. Sempre tive bom ouvido e os meus pais eram muito exigentes, o que me ajudou a ultrapassar as cópias e os ditados com sobriedade. O problema foi quando cheguei ao quinto ano e a matéria começou a adensar-se. Um dia, um colega de turma desafiou-me a comprar ‘Uma Aventura no Supermercado’. “É espectacular, vais adorar”, prometeu ele. Aceitei a proposta, comprei o livro com alguns escudos que tinha amealhado e lá o comecei a ler. O enredo prendeu-me desde o início: conta como o João, ao fazer umas compras no supermercado, dá de caras com um esquema de tráfico de diamantes. Tinha mistério, códigos indecifráveis, personagens da minha idade, linguagem simples, ação, tudo apimentado com humor. Fiquei rendido. Antes, raramente conseguia terminar meia dúzia de parágrafos sem adormecer pelo meio. Depois, passei a devorar livros como quem come cerejas. Não havia facebook, televisão por cabo ou jogos de computador. Os meus hobbies resumiam-se a brincar no campo e construir casas com os materiais de trabalho do meu pai. As referências mediáticas eram poucas e a maioria dos heróis vinha dos EUA, como ‘O Justiceiro’, o ‘MacGyver’ ou até mesmo o tio Patinhas. De certa forma, a Ana Maria Magalhães e a Isabel Alçada foram como que as minhas heroínas da juventude, que me compreendiam, entretinham e me apresentaram a todo um admirável mundo novo. Eram figuras simpáticas e fascinantes contadoras de histórias. Tudo o que um adolescente mais desejava.
Corri toda a coleção ‘Uma Aventura’, descobri as ‘Viagens no Tempo’ e depois voei com a ‘Asa Delta’. Descobri o que é ter fome de livros e sede de informação. A querer aprender mais. O princípio para um ser humano pleno. Passei a ver o mundo com outros olhos e sei que hoje sou jornalista, escrevo livros e tenho este blogue graças àquele momento em que decidi entregar-me às aventuras. Estou profundamente agradecido. Sentimento que decerto muitos outros partilharão comigo: pessoas que cresceram melhores cidadãos. Porque é esse o âmago da coleção ‘Uma Aventura’ e de todo o trabalho destas escritoras: introduzir nas crianças o gosto pela língua portuguesa, algo inexistente há quarenta anos, e quebrar um ciclo de apatia que assolava o Portugal pós-ditadura. “Ficámos estupefactas quando chegámos às escolas e nada havia para promover a leitura”, começa por lembrar Isabel Alçada. Ana Maria Magalhães acrescenta: “nos primeiros estabelecimentos onde trabalhei, em Lourenço Marques e, depois, em Salvaterra de Magos, nem sequer havia biblioteca!”
Ambas reconhecem que cresceram afortunadas. Isabel estudou no Liceu Francês, em Lisboa, rodeada de livros e férias na praia. “O que me impressionava nem era apenas os jovens lerem pouco, era nada se fazer para contrariar este paradigma”. Ana Maria Magalhães, também habituada a um lar recheado de histórias e verões passados no Estoril, confidencia: “uma das soluções de um diretor que conheci foi sugerir obras, sobretudo de leitura complexa, que os estudantes podiam ir buscar à biblioteca itinerante da Gulbenkian. Livros que nunca liam e só passeavam debaixo do braço em frente ao professor para mostrarem respeito e obediência. Era esta a norma que todos cumpriam”.
Ana e Isabel conhecem-se na preparatória Fernando Pessoa, em 1976, e percebem de imediato que partilham a mesma angústia. Abismadas com tamanha lacuna, começam a trocar bitaites. Estavam inconformadas e decidem contribuir para um movimento que, inocentemente, viria a atingir escala nacional. “Começámos a escrever pequenas histórias que entregávamos aos nossos alunos. Nunca dizíamos que éramos as autoras. Queríamos que fossem imparciais e juízes do nosso trabalho”, explica a ex-ministra da Educação. A receptividade foi fantástica, como saudosamente recorda a parceira de escrita: “eles pediam sempre mais e perguntavam pelas personagens. Sabíamos que estávamos no caminho certo. E foi aí que nasceu a ideia. Infelizmente, a maioria desses contos deitei-os para fora”, lamenta profundamente Ana Maria Magalhães. A amiga lança-lhe um olhar doce e saudosista. “Os professores acumulam toneladas de papel e temos que nos livrar de muita coisa”. O que ainda restou veio a dar origem à segunda série lançada pelas escritoras, em 1985, intitulado ‘Viagens no Tempo’. Anos depois, criaram três histórias para a ‘Asa Delta’ e, aos poucos, diversificaram o seu portefólio, mais vocacionado para o público infantil: ‘Quero Ser’, ‘História de Portugal’, ‘Ler Dá Prazer’, entre outros. “Gostamos de variar, sabe?”, esclarece Ana Maria Magalhães. “Era impossível escrever quatro a cinco aventuras por ano, como fazíamos. Precisamos de nos reinventar e foi um passo natural que demos ao escrever outro tipo de livros”. Isabel Alçada assegura: “e depois de ler, por exemplo, 15 números das ‘Viagens no Tempo’ é natural que os nossos leitores cresçam e sigam para outro tipo de leituras”.
Ao todo, terão vendido mais de 10 milhões de livros, o que as torna as escritoras portuguesas de maior sucesso nacional. E tudo isto, mantendo horários completos no ensino. “Muitas vezes tínhamos que trabalhar ao fim de semana”, recorda Isabel Alçada. O volume de trabalho foi crescendo e os projetos ampliaram-se. Ana Maria Magalhães, por exemplo, viria a colaborar, entre 1989 e 1991, na reforma do sistema educativo e foi a coordenadora do jornal do Gil, durante a Expo98. Isabel Alçada, por seu turno, antes de ser ministra da Educação, entre 2009 e 2011, foi encarregada de conceber a rede nacional de bibliotecas escolares e esteve na génese do plano nacional de leitura. “Atualmente, as bibliotecas, são locais de conhecimento, entretenimento e o centro nevrálgico de qualquer escola, fonte de saber e orgulho”, congratula-se a ex-governante. “Mas é pelos livros ‘Uma Aventura’ que seremos sempre conhecidas”, segreda Ana Maria Magalhães, após autografar um segundo livro durante a entrevista que lhes fiz na feira do livro de Lisboa.
Foi a propósito deste evento, do dia da criança e da relação que ambas têm com o Ribatejo, que tive a oportunidade de as conhecer e entrevistar. Por uma hora, pude regressar ao passado e ser miúdo de novo. E pude agradecer. “Sabe”, começa por justificar Ana Maria Magalhães, “fui professora durante 39 anos e após este tempo, sem dúvida que tenho uma enorme sensação de dever cumprido”. Sentadas lado a lado, as amigas de quatro décadas, lançam um sorriso enternecedor. “O nosso objetivo sempre foi criar o gosto pela leitura, porque nada havia para os jovens. Tínhamos esse dever para com os alunos”, explica Isabel Alçada.
E depois há o dia em que eu, depois de escrever uma carta para a editora Caminho, recebi uma missiva escrita à mão pelas próprias. O meu coração parecia que ia explodir! Ainda retenho na memória aquele dia em que arranquei a carta das mãos do meu avô que a tinha ido buscar à caixa do correio. “Mas elas escrevem mesmo a todos os leitores?”, espantei-me. Nada como as pôr à prova. Vai daí, enviei, ao longo dos anos seguintes, dezenas de cartas e todas, sem exceção, obtiveram resposta. Tenho-as ali guardadas, como fã incondicional que sou. Perante a revelação, soltam uma gargalhada. “Respondíamos sempre. Exceto nos casos em que as perguntas eram simples, como ‘porque as ilustrações são a preto e branco?’ Aí, replicávamos a mesma resposta”, explica Ana Maria Magalhães. E, já agora, porque são? “Para a impressão ser mais barata”.


Quanto ao segredo entre as gémeas (um assunto que era tema de intenso debate entre a malta) “não será revelado tão cedo” e a atual cadência de livros manter-se-á. “Não temos planos para parar”, assevera Isabel Alçada. “Queremos escrever e temos centenas de ideias em mãos. Recebemos imensos convites de autarquias, museus, palácios… tem que ser com calma”, suspira a ex-ministra da Educação. Foi publicado este mês de maio ‘A Bruxa Catuxa no Castelo das 5 Torres’, novo volume da coleção ‘Floresta Mágica’, e ‘Uma Aventura em Conímbriga’, “também um projeto encomendado”, sai em fevereiro de 2017. Ah, para que perceba a importância de tudo isto, quero lembrar-lhe que Isabel Alçada tem 70 anos e Ana Maria Magalhães conta com 74 primaveras. Serão os 70 os novos 40?

Catarina espalha sorrisos

11:47:00




Catarina Rodrigues estava farta de brinquedos produzidos em série. Procurava sempre originalidade e um lado lúdico nos produtos que comprava para o seu filho. Durante alguns anos, teve a sorte de trabalhar na loja Imaginarium, em Santarém, que acabou por encerrar em 2012. Entretanto, “entre o meu núcleo de amigos há 25 crianças, desde filhos, sobrinhos, e por aí fora. Todos os meses, celebramos um aniversário”, ri-se. “E no grupo sentíamos que havia uma lacuna na cidade quando chegava a hora de comprar um presente. Tirando as grandes cadeias de supermercados, nada havia como alternativa”, recorda. Assim, após sair da loja de brinquedos, decidiu abrir o sei negócio. Juntamente com a ajuda do marido, Catarina fundou a Catavento, situada em pleno histórico de Santarém, mas que disponibiliza serviço de venda on line.
Inaugurada a 31 de maio de 2013, o espaço pretende oferecer um serviço personalizado, simpatia e aconselhamento e, claro, brinquedos de qualidade. “A minha grande ambição”, esclarece, “é fomentar uma cultura de família e união que, creio, está muito desenraizada da sociedade atual. É muito mais fácil comprar um tablet e deixar a criança brincar no sofá, do que investir 15 minutos que sejam a participar com os nossos filhos num jogo de tabuleiro”, exemplifica. “Por isso, os meus brinquedos, além de serem a maioria fabricados com materiais renováveis, pretendem estabelecer maiores laços entre os adultos e os mais novos”, como os puzzles, conjuntos de tabuleiro, jogos de perícia e estratégia, entre outros. É claro que na Catavento também há bonecas de trapos, miniaturas, super heróis entre outros. “Praticamente todas as marcas que comercializamos não passam na televisão. Queremos ser inovadores, proporcionando experiências pedagógicas alternativas, seja apelando ao conteúdo de um livro, à ilustração de um puzzle ou ao design de um jogo”, explica. No mundo encantado da Catavento, os brinquedos promovem a agilidade, o pensamento lógico e a criatividade. E tentam ao máximo ser originais. Um dos produtos, por exemplo, é um cavalinho de madeira branco que depois pode ser personalizado com a sua cor preferida!
Catarina Rodrigues, formada em Marketing e Consumo, acredita no poder da brincadeira. “A infância é uma fase extremamente importante da vida. É a brincar que a criança desenvolve capacidades como a memória, a concentração, a imitação e a imaginação”. Ela própria vai buscar ao seu passado a sua experiência de vida. “Quando era pequenina, adorava estar com os meus pais e lembro-me da interação que havia em casa. Para mim, aquilo era muito importante. E apesar de ambos terem profissões extenuantes, nunca prescindiram de estar comigo”. E hoje, além de incutir essa educação no filho de nove anos de idade, pretende passar essa mensagem ao público. “Há estudos que o provam: basta um quarto de hora por dia, junto dos nossos filhos, a brincar, a conversar, para que eles cresçam mais saudáveis”, defende. E para dar uma ajuda, aqui ficam algumas ofertas da Catarina para os leitores do ‘conta-me histórias’: um flipper portátil da Vilac e um jogo de damas magnético, da ‘The Purple Cow’. Os primeiros a enviarem um email, com nome, morada, numero de contribuinte, morada e contacto telefónico, recebem automaticamente um destes presente. Feliz dia da criança!